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1) É muito comum ouvirmos que Brasileiro deixa tudo para última hora. Há alguma explicação na Psicologia para este hábito de procrastinar as coisas (seja na vida pessoal ou no trabalho) ou é algo mais cultural?
Procrastinar é o nome dado ao comportamento de adiar tarefas ou atividades necessárias e importantes, em algum contexto da vida. A Psicologia Comportamental acredita que todo comportamento motor é aprendido, sendo fortemente influenciado por três fatores simultaneamente: biologia do organismo, a educação que o indivíduo recebe e, a cultura em que ele está inserido. O Brasil não é um país que investe na educação, se comparado a outros países melhores desenvolvidos. A conseqüência negativa da cultura brasileira é a desorganização, a impulsividade, o consumismo, o imediatismo, a procrastinação e outros. No entanto, vale dizer que há muitas conseqüências positivas da Cultura Brasileira, como a criação, criatividade, flexibilidade, humanidade ou afetividade nas relações e outros. O ponto a ser considerado é o contexto.
O comportamento de procrastinação é desenvolvido ao longo da história de vida do indivíduo e se torna um hábito, em sua dinâmica de vida, devido às freqüentes repetições deste comportamento e possíveis conseqüências positivas. Diz-se, então, que a pessoa adquiriu um hábito comportamental: procrastinar.
2) Em geral, o que percebo é que as pessoas que adiam seus deveres podem até sentir algum prazer fazendo alguma atividade nesse intervalo de tempo, mas sentem também culpa e não conseguem tirar esse “peso” da cabeça. Quando a situação chega ao limite (o fim de um prazo de trabalho, por exemplo, ou de um horário x), elas se desesperam para cumprir a obrigação, e aí me parece que entra um elemento de sofrimento. Ou seja, elas não fazem, mas não deixam de se preocupar e no fim ainda sofrem para conseguir cumprir. É isso mesmo?
Sim. É uma perfeita descrição de uma pessoa que escolhe procrastinar. É importante dizer que procrastinar é uma escolha, assim como quando escolhemos emitir qualquer outro comportamento, por exemplo, ligar para um amigo, estudar, organizar o quarto, entre outras atividades. A diferença está entre escolher fazer ou não fazer determinada atividade; entre emitir ou não emitir um comportamento compatível com a realização de uma atividade.
O sofrimento emocional (angústia, culpa, frustração, outros) fica condicionado à própria escolha de procrastinar. Neste momento, é muito comum que o indivíduo tenha pensamentos recorrentes com relação ao próprio comportamento e atividade. É comum, também, que ele se envolva com outras atividades que lhe dê prazer, para que ele possa sentir-se melhor consigo mesmo, atenuando o sofrimento emocional e como estratégia de enfrentamento da situação que ele está vivendo. O indivíduo sabe que está evitando realizar alguma atividade que lhe é importante e que pode lhe trazer aborrecimentos futuros ou conseqüências negativas. Porém, este conhecimento não é suficiente para motivá-lo ou convencê-lo a modificar esta conduta de procrastinação para assertividade. Muitas vezes, ele prefere assumir os riscos, administrar as conseqüências negativas e manter esta atitude. Importante dizer que este sofrimento emocional desaparecerá somente quando o indivíduo realizar a atividade que ele está evitando ou adiando.
3) Há alguma causa para este hábito? Qual (is)?
As causas, como disse na primeira pergunta, são três: a biologia do organismo do indivíduo, a educação que ele recebeu, somada as suas experiências de vida, e a cultura em que ele está inserido. Como disse, todo comportamento motor é aprendido e é influenciado por estes três elementos. No caso do comportamento de procrastinar, é provável que ou a pessoa não saiba como agir diante de uma situação e, portanto, não saiba realizar a tarefa e adia por esta razão, ou a pessoa escolhe se envolver com outras atividades concorrentes aquela que ele está adiando, porque é mais fácil, é mais prazeroso, é mais rápido, entre outras razões que predispõe a procrastinação.
Como influência de cultura, o Brasil dá poucos modelos de condutas assertivas, que envolvem organização, planejamento, autocontrole, limites, iniciativas e acabativas. A cultura Brasileira propõe aos Brasileiros criarem a sua própria maneira e estilo de viver e isso inclui comportamentos.
Desta forma, o comportamento de procrastinar é reforçado pelo Brasil, pelos Brasileiros e, portanto, pela Cultura Brasileira, se pensarmos na falta de punição ou na falha de punição, quando o indivíduo que escolheu procrastinar precisa absorver as conseqüências negativas desta escolha. É muito comum o individuo ou se livrar destas conseqüências ou não tê-las. Certa vez, ouvi uma colega dizer que havia deixado de pagar uma conta. Ela não só deixou de pagar a conta na data do vencimento, como também ganhou desconto e pagou um valor menor do que era devido, se ela tivesse pagado no vencimento. Claro, que não podemos cair no erro de generalizar as situações. No entanto, este é um bom exemplo de como o Brasil, os Brasileiros e a Cultura Brasileira reforça a procrastinação.
4) Pela sua experiência e observação, é um hábito que normalmente as pessoas arrastam pela vida ou é mais comum em determinadas fase da vida?
Depende da pessoa. Para cada fase da vida, de acordo com a idade e maturidade da pessoa, há condições dela emitir e aprender vários comportamentos. Todos de acordo com sua capacidade física e mental. A fase da vida determina apenas o que a pessoa está apta a fazer e a aprender. No entanto, quem decide se evolui ou se mantém os comportamentos aprendidos é a própria pessoa. Quem decide se irá procrastinar é a própria pessoa. Nesta hora, a pessoa precisa escolher entre enfrentar a situação e, muitas vezes, aprender novos comportamentos para realizar a tarefa ou adiá-la até o limite e se envolver com outras atividades. Esta escolha não têm relação com a idade, porque as atividades são compatíveis com sua dinâmica de vida e com suas capacidades.
5) O que pode ser feito para deixar esse hábito de lado? Se for impossível abandoná-lo de vez, há alguns “artifícios” para ajudar minimizar os efeitos.
Deixar este hábito de lado é aprender novos comportamentos para substituir o comportamento de procrastinar. Toda pessoa saudável (que não possui nenhum transtorno físico ou mental impeditivo ao aprendizado de comportamentos), pode aprender novas atitudes e abandonar hábitos negativos ou errados.
Novamente, toda e qualquer modificação de comportamento depende da pessoa. Ela pode ter informações muito úteis e importantes para modificar tal conduta de procrastinar. No entanto, ela precisa escolher querer ou não querer modificar tal comportamento. Na situação desta pessoa escolher modificar tal atitude, ela precisa por em prática novos comportamentos assertivos, que substituam os comportamentos de procrastinar. Para isto, ela precisa receber orientações terapêuticas de novas condutas. A Terapia Comportamental auxilia na construção de uma análise funcional do comportamento de procrastinar (como surgiu, qual a utilidade deste comportamento e porque ele existe na vida do indivíduo) e propõe ao indivíduo novas habilidades comportamentais (maneiras diferentes e adequadas para viver uma determinada situação), extinguindo assim o comportamento de procrastinar.